Os Três Erros Mais Comuns da Mídia em Relação a Bissexuais

Antes de começar a fazer essa publicação, eu fiz essa pergunta para algumas pessoas, e queria que você também tomasse um tempo para respondê-las. Não precisa pensar muito. Você lembra, de cara…

1. … de uma celebridade bissexual?

2. … de um(a) personagem bissexual?

3. … de alguma estória sobre ser bissexual?

Se não lembra, talvez o problema não seja exatamente a sua memória. E sim as maneiras como os diferentes tipos de mídia lidam com a bissexualidade.

 

1. Invalidar

Na vivência bissexual, a invalidação pode acontecer de diversas maneiras, e pode variar de acordo com o gênero também. Os homens, por exemplo, são vistos como secretamente gays, que não tem coragem de sair do armário. Mesmo que ele diga “bissexual”, as pessoas ouvem “homossexual”. Já as mulheres são fetichizadas ou ridicularizadas. Elas podem ser vistas como diversão para as práticas sexuais do homem hétero, ou ainda como enganadoras de lésbicas.

Algo que acontece com ambos é a pressuposição da sexualidade: se a pessoa está em um relacionamento homoafetivo, presume-se que a pessoa “mudou de time”. Se está em um relacionamento heteroafetivo, isso já é visto como “voltar atrás”. Homens e mulheres se deparam com a surpresa alheia quando em um relacionamento do gênero oposto, mesmo que isso esteja de acordo com a definição de bissexual.

A expressão "apesar de" não faz sentido nenhum. Ser bissexual não impede ninguém de se relacionar com mulheres ou ter filhos.

A expressão “apesar de” não faz sentido nenhum. Ser bissexual não impede ninguém de se relacionar com mulheres ou ter filhos.

 

Essas pressuposições deslegitimam a bissexualidade, fomentando a visão de que existe apenas o 8 ou o 80, o preto ou o branco, o heterossexual ou o gay/a lésbica.

 

Embora tenha tido algumas controvérsias logo que saiu do armário, Cinthia Nixon se declarou bissexual.

Embora tenha tido algumas controvérsias logo que saiu do armário, Cinthia Nixon se declarou bissexual.

 

2. Aglutinar (para invisibilizar)

Por conta da sigla do movimento LGBT, pessoas bissexuais estão acostumadas a, quando conseguirem algum espaço, serem agrupadas com lésbicas e gays. Embora seja óbvio que pessoas LGB tenham algumas experiências parecidas (especialmente por serem tratadas como sexualidades “desviantes”), bissexuais tem vivências específicas e muito diferentes das pessoas monossexuais¹.

Quando Ana Carolina falou publicamente sobre a sua bissexualidade, a revista em questão além de cometer vários erros etimológicos (como usar “homossexualismo” e “lesbianismo”, e tratar a orientação da cantora como “opção sexual”), também aglutinou a sua história à de gays e lésbicas. As suas particularidades quanto a esses dois grupos acabaram então não sendo destacadas, discutidas ou sequer mencionadas.

Só para citar um exemplo, lésbicas e gays não sofrem o rechaço de ouvirem que sua sexualidade não existe, algo que bissexuais tem que lidar continuamente e que poderia ser desmistificado nesses espaços.

 

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3. Omitir

Ainda que respostas para a segunda e terceira perguntas venham à cabeça, elas vem acompanhadas de dúvidas: são personagens que deram a entender a sua bissexualidade; que tiveram relações sexuais com mais de um gênero, mas nunca declararam nada; estórias que talvez sejam sobre uma pessoa bissexual.

A representação de pessoas bissexuais frequentemente se torna uma questão de interpretação, por carência de rótulos explícitos. Por causa dos estigmas que a bissexualidade carrega (de indecisão, promiscuidade e que geram desconfiança aos outros), poucas vezes vemos a bandeira B sendo levantada em espaços que gerariam discussões e visibilidade.

Para falar de uma série mais recente e que possui muitos avanços em questão de representação e representatividade feminina, vejamos o exemplo Orange Is The New Black, um seriado com mulheres multifacetadas e diversificadas. E mesmo com todo o avanço da história, a protagonista Piper Chapman e a personagem Lorna Morello não são identificadas como bissexuais, apesar de terem envolvimentos afetivo-sexuais com homens e mulheres. Em alguns momentos da série, Piper ainda é referida como “ex-lésbica”, observação que ela nunca corrige.

Se você parar para analisar a lista em inglês do Wikipedia sobre a representação bissexual através de personagens de seriados, filmes e literatura, vai perceber que a maioria deles são descritos como fluidos. Isso quer dizer que a sexualidade foi implicitada, ou  interpretada como uma fase de experimentação ou transição (de hetero para lésbica/gay), devido à sociedade majoritariamente heterossexual em que vivemos. Vale lembrar que o argumento da “confusão” é muito usado para deslegitimar a sexualidade de pessoas bis.

 

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Aqui você pode ler mais sobre personagens bissexuais.

 

 

É claro que nem sempre temos o poder de dialogar com profissionais de comunicação ou levar nossos apontamentos a essas pessoas, mas prestar atenção a esses “pequenos” detalhes desperta nosso senso de fiscalização. Pode não parecer, mas isso faz toda a diferença para quem se sente constantemente desrespeitado pela sociedade.

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual cujo objetivo é combater a invisibilidade que a comunidade bissexual sofre, bem como combater estereótipos. Bissexual não é uma pessoa confusa, não alguém que está experimentando. Não são pessoas mais propensas a traírem ou terem múltiplos relacionamentos.

 

¹ Monossexual é a pessoa que se sente atraída e/ou tem relações afetivo-sexuais com pessoas somente de um gênero.

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Se homens fossem retratados da mesma maneira que mulheres são (parte I)

Demorou, mas aconteceu. Na verdade, nem demorou tanto assim, mas o fato é que aconteceu: o apelidado jornalismo-punheteiro (ou, aquelas matérias que resumem a mulher em um pedaço de carne a ser avaliado, analisado e quem sabe digno ou não de ‘aprovação’) chegou na sua edição eleitoral bienal.

A UOL publicou uma lista de 24 candidatas de todo o Brasil eleitas como “as mais belas”. Usando expressões como “fulana conserva uma beleza sóbria e marcante”, “beltrana exibe uma beleza madura do alto de seus 48 anos” e “ciclana quer levar seu charme discreto e comportado para Brasília”, é quase impossível não cobrir o rosto de vergonha.

Todo ano eleitoral é a mesma coisa. As mesmas listas de “candidatas mais bonitas” colocam a aparência das mulheres como algo relevante para a sociedade. Na verdade, quem já prestou atenção sabe que não é preciso eleição: qualquer evento, de premiações a esportes, são seguidos de alguma lista do gênero. Pode ser jogadora, torcedora, atriz, lutadora… Não importa onde a mulher esteja. O que importa é saber quais delas atendem a um determinado padrão de beleza. Quais delas estão se esforçando para estarem “na moda”; quais nem estão tentando e quais estão tentando demais.

E isso não é exclusividade do Brasil. A América do Sul, por exemplo, possui três presidentas mulheres e todas elas são submetidas a um crivo midiático sobre suas aparências, mas de maneiras diferentes: Michelle BacheletDilma já foram alvo de piadas por serem “feias”, enquanto Cristina Kirchner já foi acusada de ser “elegante demais”. Na Itália, a ministra Maria Elena ganhou apelidos e fotos manipuladas por ser considerada muito atraente. Os cabelos de Hillary Clinton recebem atenção especial em determinados portais – e mesmo que vez ou outra ridicularizem homens também, é nítido que o número de vezes em que isso acontece é muito menor do que com as mulheres.

O campo político não é um território feminino, nem está se tornando mais amigável com o passar dos anos. Embora a participação feminina esteja crescendo, ela ainda não é o suficiente se considerarmos que mais da metade do eleitorado brasileiro é composto por mulheres. Atualmente, ocupam menos de 10% do Congresso Nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Seria de se imaginar que se tratando de um assunto sério como política, a aparência e as roupas usadas por alguém seriam considerados irrelevantes. Que as pessoas estariam mesmo interessadas em propostas, planos de governo e ações. Mas uma mulher ocupando um cargo político é um perigo para os padrões tradicionais: a sua presença é a negação do estereótipo da submissão feminina. É a negação de que existem espaços distintos para homens e para mulheres.

Por isso, quando ela é vista em um palanque, desviar a atenção dos seus discursos para a sua aparência a tornam um objeto de decoração; um bibelô que não precisa ser levado a sério. Esmiuçar a sua aparência, chamando-a de muito masculina ou sexualizando sua figura, é uma tática para desviar o foco do seu profissionalismo.

Infelizmente, muitas pessoas já naturalizaram esse julgamento do corpo e das roupas da mulher. Para ilustrar o quão absurdo é gastar energia com isso, escolhi alguns candidatos a diferentes cargos na eleição desse ano para fazer o mesmo:

Os candidatos mais charmosos das eleições 2014

Fernando Lucas

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Jovem e casado, Fernando não revela quantos filhos quer ter. Neste #lookdodia ostenta uma ousada camisa branca que deixa seus pulsos torneados à mostra.

Lindberg Farias

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O candidato a senador do Rio de Janeiro exibe sua boa forma (mesmo depois de pai) nas praias do RJ, numa roupa primavera-verão.

Fernando Collor de Melo

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O candidato a senador de Alagoas exibe um charme de homem maduro. Ele desmente os boatos de que tenha feito botox e num ato de coragem, não pinta seus cabelos brancos.

José Serra

https://i0.wp.com/el.imguol.com/2012/10/07/7out2012---o-candidato-a-prefeito-jose-serra-faz-coracao-com-as-maos-durante-coletiva-na-sede-do-psdb-ele-vai-disputar-o-segundo-turno-com-o-candidato-do-pt-fernando-haddad-1349656305948_956x500.jpg

Dono do sorriso mais simpático das eleições paulistas, Serra não diz qual o segredo da sua beleza. Ele desmente affairs com eleitoras e diz não saber lidar com o assédio das mulheres.

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