Se homens fossem retratados da mesma maneira que mulheres são (parte I)

Demorou, mas aconteceu. Na verdade, nem demorou tanto assim, mas o fato é que aconteceu: o apelidado jornalismo-punheteiro (ou, aquelas matérias que resumem a mulher em um pedaço de carne a ser avaliado, analisado e quem sabe digno ou não de ‘aprovação’) chegou na sua edição eleitoral bienal.

A UOL publicou uma lista de 24 candidatas de todo o Brasil eleitas como “as mais belas”. Usando expressões como “fulana conserva uma beleza sóbria e marcante”, “beltrana exibe uma beleza madura do alto de seus 48 anos” e “ciclana quer levar seu charme discreto e comportado para Brasília”, é quase impossível não cobrir o rosto de vergonha.

Todo ano eleitoral é a mesma coisa. As mesmas listas de “candidatas mais bonitas” colocam a aparência das mulheres como algo relevante para a sociedade. Na verdade, quem já prestou atenção sabe que não é preciso eleição: qualquer evento, de premiações a esportes, são seguidos de alguma lista do gênero. Pode ser jogadora, torcedora, atriz, lutadora… Não importa onde a mulher esteja. O que importa é saber quais delas atendem a um determinado padrão de beleza. Quais delas estão se esforçando para estarem “na moda”; quais nem estão tentando e quais estão tentando demais.

E isso não é exclusividade do Brasil. A América do Sul, por exemplo, possui três presidentas mulheres e todas elas são submetidas a um crivo midiático sobre suas aparências, mas de maneiras diferentes: Michelle BacheletDilma já foram alvo de piadas por serem “feias”, enquanto Cristina Kirchner já foi acusada de ser “elegante demais”. Na Itália, a ministra Maria Elena ganhou apelidos e fotos manipuladas por ser considerada muito atraente. Os cabelos de Hillary Clinton recebem atenção especial em determinados portais – e mesmo que vez ou outra ridicularizem homens também, é nítido que o número de vezes em que isso acontece é muito menor do que com as mulheres.

O campo político não é um território feminino, nem está se tornando mais amigável com o passar dos anos. Embora a participação feminina esteja crescendo, ela ainda não é o suficiente se considerarmos que mais da metade do eleitorado brasileiro é composto por mulheres. Atualmente, ocupam menos de 10% do Congresso Nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Seria de se imaginar que se tratando de um assunto sério como política, a aparência e as roupas usadas por alguém seriam considerados irrelevantes. Que as pessoas estariam mesmo interessadas em propostas, planos de governo e ações. Mas uma mulher ocupando um cargo político é um perigo para os padrões tradicionais: a sua presença é a negação do estereótipo da submissão feminina. É a negação de que existem espaços distintos para homens e para mulheres.

Por isso, quando ela é vista em um palanque, desviar a atenção dos seus discursos para a sua aparência a tornam um objeto de decoração; um bibelô que não precisa ser levado a sério. Esmiuçar a sua aparência, chamando-a de muito masculina ou sexualizando sua figura, é uma tática para desviar o foco do seu profissionalismo.

Infelizmente, muitas pessoas já naturalizaram esse julgamento do corpo e das roupas da mulher. Para ilustrar o quão absurdo é gastar energia com isso, escolhi alguns candidatos a diferentes cargos na eleição desse ano para fazer o mesmo:

Os candidatos mais charmosos das eleições 2014

Fernando Lucas

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Jovem e casado, Fernando não revela quantos filhos quer ter. Neste #lookdodia ostenta uma ousada camisa branca que deixa seus pulsos torneados à mostra.

Lindberg Farias

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O candidato a senador do Rio de Janeiro exibe sua boa forma (mesmo depois de pai) nas praias do RJ, numa roupa primavera-verão.

Fernando Collor de Melo

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O candidato a senador de Alagoas exibe um charme de homem maduro. Ele desmente os boatos de que tenha feito botox e num ato de coragem, não pinta seus cabelos brancos.

José Serra

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Dono do sorriso mais simpático das eleições paulistas, Serra não diz qual o segredo da sua beleza. Ele desmente affairs com eleitoras e diz não saber lidar com o assédio das mulheres.

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